Quanto cobrar por quilômetro quando você compartilha um carro com pessoas próximas?
Sua vizinha pega o carro duas vezes por semana, seu irmão o leva nas férias, seu colega de apartamento usa para ir ao trabalho. Sempre chega o momento em que alguém pergunta: «quanto eu te dou?» Não existe uma resposta única, mas também não é um número aleatório. Aqui estão as referências disponíveis e os custos reais no Brasil e em quatro países europeus, com o limite que não se deve ultrapassar para continuar dentro da divisão de custos.
Leia antes de continuar. Este artigo é informação geral, não uma orientação fiscal ou securitária individualizada. Os números foram verificados em agosto de 2026 nas fontes listadas no final, mas as regras mudam a cada ano e as condições variam de apólice para apólice. Em caso de dúvida, seus interlocutores são a Receita Federal e a sua seguradora.
O essencial em 30 segundos
- Uma regra governa tudo: nunca ter lucro. Enquanto a pessoa próxima devolver uma parte dos seus custos reais, não é rendimento tributável nem locação, e o seguro comum continua valendo. Vale no Brasil e nos quatro países europeus comparados aqui.
- O Brasil não tem tabela oficial de quilometragem para carro particular. A CLT não fixa piso nem teto. A prática de mercado em 2026 fica entre R$ 0,80 e R$ 1,50 por quilômetro, com a maioria das empresas entre R$ 1,00 e R$ 1,20.
- Sem tabela oficial, o caminho certo é calcular o seu próprio custo: combustível, manutenção, IPVA, seguro e depreciação, dividido pelos quilômetros do ano. A depreciação costuma ser o maior item de todos.
- Do lado fiscal: receber dinheiro pela cessão do carro é rendimento tributável recebido de pessoa física, sujeito ao carnê-leão. Desde 2026, rendimentos mensais de até R$ 5.000 são isentos de IRPF.
- Do lado do seguro: emprestar o carro eventualmente é aceito, mas declarar errado quem é o condutor principal é uma das maiores causas de negativa de sinistro no Brasil.
Três números diferentes que não se devem confundir
Quando você procura «quanto cobrar por quilômetro» aparecem valores muito distantes entre si. É natural: eles não respondem à mesma pergunta.
A tabela oficial de reembolso existe para ressarcir ou deduzir o uso de um veículo particular em atividade profissional. É pensada para um empregado ou um profissional autônomo, não para duas pessoas próximas que dividem um carro. Sua vantagem, nos países que a publicam: é um número público, aceito pelo fisco, que ninguém pode contestar.
O custo real completo por quilômetro soma tudo: depreciação do veículo, seguro, IPVA, manutenção, pneus, combustível e reparos. É o que o carro custa de verdade para o dono.
A tarifa justa entre pessoas próximas é a que você procura. Ela deve cobrir uma parcela equitativa do custo real, sem nunca gerar lucro para o proprietário. É essa última condição que mais pesa, e voltamos a ela em cada país.
A fronteira jurídica é a mesma nos cinco países tratados: enquanto você divide custos reais sem margem, em princípio não há rendimento a declarar e o seguro comum continua funcionando. Assim que existe lucro ou uma atividade repetida equiparável a uma locação, vira rendimento a declarar, e a cobertura de uma apólice de pessoa física costuma deixar de se aplicar.
Brasil: sem tabela oficial, com um cálculo que você mesmo faz
Aqui está a diferença mais importante entre o Brasil e os quatro países europeus deste artigo. Não existe no Brasil uma tabela oficial de custo por quilômetro para veículo particular. A CLT não estabelece piso nem teto para reembolso de quilometragem, e a Receita Federal não publica um valor de referência equivalente ao das autoridades fiscais europeias.
O que existe é uma prática de mercado. Em 2026, as empresas que reembolsam quilometragem trabalham com valores entre R$ 0,80 e R$ 1,50 por quilômetro, e a faixa mais usada fica entre R$ 1,00 e R$ 1,20. Não é uma norma, é um costume: útil como ordem de grandeza, mas sem nenhuma autoridade fiscal por trás.
A consequência prática é boa, e não ruim. Sem tabela imposta, a pergunta «quanto cobrar» tem uma resposta mais honesta no Brasil do que na Europa: calcule o seu custo real e divida.
Como calcular o seu custo por quilômetro
Some, ao longo de um ano, tudo o que o carro consome:
- Combustível. Pegue o consumo real do seu carro, não o do catálogo, e o preço médio que você paga no posto.
- Manutenção. Revisões, óleo, filtros, pastilhas, pneus. Os pneus são um item pesado e frequentemente esquecido, porque a troca acontece a cada dois ou três anos.
- IPVA, licenciamento e seguro obrigatório. São valores anuais fixos, que você paga mesmo com o carro parado na garagem.
- Seguro. Idem: valor anual fixo, independente da quilometragem.
- Depreciação. É quase sempre o maior item, e o mais invisível. Um carro novo perde tipicamente de 15 % a 20 % do valor no primeiro ano e cerca de 10 % ao ano depois disso. A referência de mercado para medir essa perda é a Tabela FIPE: compare o valor do seu modelo hoje com o de doze meses atrás.
Divida o total pelos quilômetros que você rodou no ano. Esse número é o seu custo real por quilômetro, e é o único que descreve a sua situação de verdade.
Um atalho útil para separar as duas metades: o combustível representa mais ou menos 60 % do custo de rodagem propriamente dito, enquanto depreciação, seguro, IPVA e manutenção somados costumam passar de metade do custo total por quilômetro. Traduzindo: mais da metade do que o carro custa por ano não depende de quanto você roda. É exatamente por isso que compartilhar faz sentido financeiro.
Quando deixa de ser divisão de custos
Devolver uma parte de despesas efetivas não gera lucro e não é rendimento. Esse é o caso normal entre pessoas próximas.
Se, ao contrário, você recebe dinheiro pela cessão do carro, isso é rendimento tributável recebido de pessoa física. Rendimentos desse tipo entram no carnê-leão, com recolhimento mensal por DARF até o último dia útil do mês seguinte, e depois são informados na declaração anual.
A mudança relevante de 2026 vem da Lei 15.270, de 26 de novembro de 2025: a partir do ano-calendário de 2026, rendimentos tributáveis mensais de até R$ 5.000 ficam isentos de Imposto de Renda. Entre R$ 5.000,01 e R$ 7.350 há uma faixa de transição com redução decrescente, e acima disso vale a tabela progressiva normal. Na prática, para a maioria das pessoas que dividem um carro com um vizinho, o valor envolvido está muito longe de qualquer tributação.
Isso não muda a regra de fundo, e é ela que importa: enquanto o que você recebe apenas devolve custos que você já teve, não há lucro, não há rendimento e não há discussão. Quando passa a haver margem, existe rendimento, mesmo que ele acabe caindo na faixa isenta.
Do lado do seguro
No Brasil o seguro é contratado a partir de um perfil, e é aí que mora o risco. Três pontos:
- Condutor eventual. Alguém que dirige o carro esporadicamente, como um amigo que pega emprestado num fim de semana, costuma ser aceito pelas seguradoras sem precisar constar do contrato. Empréstimo pontual, portanto, é situação normal e coberta.
- Condutor principal. É a declaração mais delicada da apólice brasileira. Registrar um pai experiente como condutor principal quando, na prática, quem usa o carro todo dia é o filho recém-habilitado é considerado omissão de informação. Declaração falsa ou desatualizada sobre o condutor principal está entre as principais causas de negativa de sinistro no país. Se alguém do círculo passa a usar o carro com frequência maior que a sua, atualize o perfil.
- Cessão mediante pagamento. Locação não é uso particular. Uma apólice de pessoa física não cobre a atividade de aluguel, que exige cobertura própria.
Como os outros países resolvem isso
Os quatro países europeus abaixo publicam números oficiais. Vale conhecê-los, porque mostram em que faixa um valor «razoável» costuma cair.
Suíça. O TCS publica todo ano o custo por quilômetro de um carro de referência, e em janeiro de 2026 o fixou em 0,74 franco por quilômetro, dos quais cerca de 28 centavos de custos variáveis e 46 de custos fixos. Desde 1º de janeiro de 2026 a dedução fiscal federal para o trajeto casa-trabalho é de 0,75 franco, indexada justamente a esse preço do TCS.
França. É o país com a referência mais generosa. A tabela quilométrica oficial vai de 0,529 a 0,697 euro por quilômetro na primeira faixa, conforme a potência fiscal, com 20 % a mais para elétricos. Como o custo real médio gira em torno de 42 centavos, a tabela francesa é a única das cinco que cobre com folga o custo completo de um carro médio.
Alemanha. Distingue dois valores: 0,38 euro por quilômetro de distância casa-trabalho desde 2026 e 0,30 euro por quilômetro efetivamente rodado em viagem profissional. A particularidade é o limite: abaixo de 256 euros de receita líquida anual com cessões privadas não há nada a declarar, e a partir daí o valor inteiro passa a ser tributável.
Países Baixos. A compensação isenta subiu para 0,25 euro por quilômetro em 2026. É o teto mais baixo dos cinco e fica muito abaixo do custo real holandês, que o Nibud situa entre 0,50 e 0,80 euro por quilômetro conforme a categoria.
Os cinco países lado a lado
| País | Referência oficial por quilômetro | Custo real de referência | Fontes | Ano |
|---|---|---|---|---|
| Brasil | Nenhuma tabela oficial. Prática de mercado: R$ 0,80 a R$ 1,50 | A calcular caso a caso (combustível, manutenção, IPVA, seguro, depreciação FIPE) | CLT, Receita Federal, FIPE | 2026 |
| Suíça | 0,75 CHF (dedução federal e valor do empregador) | 0,74 CHF por km | DFF, TCS | 2026 |
| França | Tabela quilométrica: 0,529 a 0,697 EUR conforme a potência | Cerca de 42 centavos por km a 12.000 km | DGFiP, Roole Data | 2026 (tabela), 2025 (custo) |
| Alemanha | 0,30 EUR (viagem profissional), 0,38 EUR (casa-trabalho) | 0,40 a 0,58 EUR por km | EStG, ADAC | 2026 (fiscal), 2025-2026 (ADAC) |
| Países Baixos | 0,25 EUR (compensação isenta) | 0,50 a 0,80 EUR por km | Belastingdienst, Nibud | 2026 (fiscal), 2025 (custo) |
Três constantes atravessam os cinco países. A divisão de custos reais sem lucro não é rendimento tributável, enquanto a cessão com margem é. O seguro acompanha o veículo ou o perfil declarado, então o empréstimo gratuito é coberto, mas o pagamento derruba a cobertura comum. E o custo real completo supera o teto fiscal em quase todos os lugares, com a Suíça tendo alinhado os dois e a França como exceção para cima.
O Brasil se distingue pela ausência de tabela. Isso obriga a fazer a conta, o que é mais trabalhoso, mas dá um resultado mais próximo da realidade do seu carro do que qualquer média nacional.
Qual tarifa escolher conforme a sua situação
Se a pessoa usa o carro pontualmente, algumas viagens por mês, cobre a parte variável: o combustível e o desgaste gerados diretamente pelos quilômetros dela. O proprietário assume os custos fixos, que pagaria de qualquer jeito.
Se a pessoa usa muito o carro, várias vezes por semana ou uma parcela significativa da quilometragem anual, a parte variável já não basta: o proprietário acaba financiando sozinho o seguro, o IPVA e a depreciação de um veículo que já não usa nem metade do tempo. Aproxime-se então do custo completo calculado como descrito acima.
Se você não quiser escolher uma tarifa, existe outro caminho: somar todas as despesas reais do veículo no ano e dividi-las entre os membros do círculo na proporção dos quilômetros de cada um. Assim não é preciso tabela nenhuma, apenas um registro confiável de quilômetros e despesas. É o princípio da divisão de custos no Co-oto.
Os quatro cuidados a manter
Nunca ter lucro. É a regra que condiciona todo o resto: a natureza fiscal do que você recebe e a validade do seu seguro. Cobrar pelo custo real ou abaixo dele protege você dos dois lados.
Deixar registro escrito. Uma mensagem basta, desde que indique o período, como o valor foi calculado e que se trata de divisão de custos. Um registro de quilômetros e despesas vale mais do que a memória, e evita a maior parte dos mal-entendidos entre pessoas próximas.
Ficar de olho nos limites. No Brasil, o carnê-leão e a faixa de isenção de R$ 5.000 mensais a partir de 2026. Na Alemanha, os 256 euros anuais. Na Suíça e nos Países Baixos, não receber mais do que os próprios custos.
Avisar a seguradora. Mantenha o perfil do condutor principal atualizado, é o ponto mais sensível da apólice brasileira. E evite a palavra e a prática do «aluguel»: a cobertura comum termina onde começa a remuneração.
Um sinal deve acender o alerta: se a pessoa próxima passa a usar o carro várias vezes por semana, é hora de rever o perfil no seguro e de migrar para uma divisão pelo custo completo em vez de uma contribuição simbólica.
Como o Co-oto aplica esse cálculo
O Co-oto foi feito exatamente para esse caso: algumas pessoas de confiança, um veículo e nenhuma vontade de manter uma planilha viva. O aplicativo registra os quilômetros de cada condutor e as despesas correntes do veículo, e produz um acerto que reparte essas despesas entre os membros do círculo. Vocês definem o critério de divisão; o aplicativo faz a aritmética e guarda o registro escrito.
Nenhuma comissão é cobrada e nada passa pelo aplicativo. O proprietário adianta as contas maiores e centraliza os reembolsos, cada condutor paga apenas a sua parte de uso real, e vocês acertam entre si como preferirem, por Pix, transferência ou em dinheiro. O Co-oto mantém as contas mas nunca toca no dinheiro de vocês. Por construção, vocês continuam na divisão de custos.
Para entender o funcionamento completo, veja como funciona e o registro de viagens, que documenta os quilômetros sobre os quais todo o cálculo se apoia.
Fontes e método
Todos os números deste artigo foram verificados em agosto de 2026.
Brasil: rendimentos sujeitos ao carnê-leão, Receita Federal ; Lei 15.270, de 26 de novembro de 2025, que institui a isenção do IRPF até R$ 5.000 mensais a partir de 2026 e a sanção noticiada pelo Senado ; Tabela FIPE para a depreciação do veículo.
Suíça: comunicado do TCS de 6 de janeiro de 2026 sobre custos quilométricos ; comunicado do Departamento Federal de Finanças de 11 de setembro de 2025.
França: tabela quilométrica, BOFiP BOI-BAREME-000001 ; estudo Roole Data sobre o orçamento automotivo, 10 de outubro de 2025.
Alemanha: Pendlerpauschale 2026, ADAC ; custos automotivos completos, ADAC ; parágrafo 22 nº 3 da EStG para o limite de 256 euros.
Países Baixos: decisão sobre o aumento da compensação quilométrica isenta, Belastingdienst ; custos mensais do automóvel, Nibud, dados ANWB de junho de 2025.
Ressalvas. As tabelas oficiais europeias e os custos publicados pelos clubes automotivos são fatos datados e com fonte. A faixa brasileira de R$ 0,80 a R$ 1,50 por quilômetro não é oficial: é uma prática de mercado relatada por fornecedores de gestão de despesas corporativas, e não tem valor normativo. As proporções citadas para combustível e depreciação são ordens de grandeza correntes no mercado brasileiro, não medições de um estudo único. O tratamento fiscal exato de um ressarcimento recebido de um familiar no Brasil permanece uma zona de interpretação, na ausência de orientação pública específica. Por fim, todos os custos reais variam muito conforme o veículo, a idade, o motor, a quilometragem anual e o estado.
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Lembrete: este artigo é um guia informativo, não uma orientação fiscal ou securitária. Cada situação é particular; em caso de dúvida, procure a Receita Federal ou a sua seguradora.
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